Blade Runner: o fim do mistério

18 de julho de 2000
"Ele é um replicante." Com esta singela frase o cineasta Ridley Scott encerrou na semana passada uma discussão de quase 20 anos. O pronome pessoal em questão se refere ao personagem Deckard (interpretado por Harrison Ford), um ex-policial cuja missão é, ironicamente, caçar replicantes.

"Blade Runner - o caçador de andróides" definiu um novo gênero para o cinema de ficção científica: o cyberpunk. Quando o filme foi lançado, em 1982, a ficção científica estava em alta, por causa do sucesso de épicos de aventura e fantasia como "Jornada nas Estrelas" e "Guerra nas Estrelas". Scott foi buscar inspiração no romance "Do androids dream of eletric sheep?", do escritor Philip K.Dick, para tecer uma história sombria sobre o futuro da humanidade, e uma das mais belas demonstrações de amor à vida mostradas nas grandes telas.

A trama de "Blade Runner" é simples. Deckard é convocado pela polícia para eliminar seis replicantes de última geração, com treinamento militar e quase impossíveis de distinguir dos humanos. Os andróides fugiram de uma mina espacial e estão à solta em Los Angeles.

Para cumprir sua missão, Deckard procura a empresa que fabrica os andróides. Ele se apaixona por Rachel (Sean Young), sobrinha do presidente da companhia. Deckard logo descobre que, como todo mundo no filme, Rachel é uma andróide.
Scott apresenta em seu filme uma projeção de nossos medos atuais. Cidades superpopuladas e violentas, Meio Ambiente destruído e o domínio econômico das grandes corporações. Na Los Angeles do filme chove o tempo todo, nunca se vê o sol e nas ruas se fala um dialeto que mistura inglês, chinês e outras línguas.

O filme pode ser visto como uma parábola pós-moderna sobre a relação do homem com Deus. Os replicantes são criados à imagem e semelhança dos humanos, assim como a Bíblia diz que fomos feitos à imagem do Criador. Os andróides procuram por seus fabricantes (no filme, dois cientistas, como Pai e Filho na Trindade: um idoso e sábio, outro jovem e com uma doença incurável) tentando encontrar um sentido para sua existência. Quanto a nós... cheque a seção de filosofia na livraria mais próxima e me diga o que temos buscado nos últimos milhares de anos....

Uma das cenas mais bonitas é a morte do personagem Roy (Rutger Hauer), na qual ele comenta as coisas que viveu e lamenta que tudo vá "se perder como lágrimas na chuva" quando deixar de existir. À beira da morte, Roy ainda encontra forças para salvar Deckard, que o perseguiu durante todo o filme. "Talvez porque naquele momento a vida fosse infinitamente preciosa para ele. Qualquer vida, mesmo a minha", reflete o caçador.


Quando Roy morre, solta uma pomba branca - o símbolo do espírito na religião cristã - que alça vôo até desaparecer na noite. Ridley Scott sabe das coisas.


A versão do diretor

Em 1993, Scott lançou a "versão do diretor" para "Blade Runner". Houve várias alterações significativas. A narração em off, feita por Harrison Ford, foi suprimida. Ela entrou no filme de 1982 por pressão dos executivos do estúdio, que achavam que a história precisava ser explicada, ou o público ficaria confuso.

O final do filme também foi mudado (não vou contar qual é). Na versão do estúdio, "Blade Runner" termina com Deckard e Rachel num automóvel, correndo por um campo verde como numa lua-de-mel. Deckard sabe que, como toda replicante, Rachel tem um tempo de funcionamento limitado - em geral, quatro anos. Numa concessão ao final feliz, os executivos decretaram que Rachel é um tipo especial, e que ninguém sabe quando ela morrerá. Exatamente como os humanos. Tá bom.

Talvez a mudança mais instigante da versão do diretor seja a insinuação de que Deckard é um replicante. No filme de 1982, há uma cena em que o policial Gaff (Edward James Olmos) entrega para Deckard um origami em forma de unicórnio. Nenhum espectador entendeu nada, e não era para menos: a cena só faz sentido no contexto de uma seqüência cortada pelos executivos.

Essa seqüência aparece inteira na versão do diretor. Trata-se de um sonho de Deckard, onde aparece um unicórnio. Uma das maneiras que ele utiliza para mostrar a Rachel que ela é replicante é justamente mostrar que mesmo suas lembranças e sonhos mais íntimos são conhecidos por várias pessoas.

Para quem assistiu a "Blade Runner" com atenção, a revelação de Scott não é surpresa. Há várias outras pistas espalhadas na história. Talvez o diretor simplesmente estivesse cansado de críticos com teorias extravagantes. Mas é uma boa desculpa para rever um grande filme sobre um novo ponto de vista.